Minha História

     Por volta da minha pré adolescência, eu escrevi um blog chamado "sem rótulos", o qual era o título do texto da minha redação do Enem. Hoje, adulta e vivendo outros momentos, fico pensando, "o que essa garota branquela, heterossexual, de classe média alta pode falar sobre sem rótulos". Bom, essa garota nem sempre viveu da forma que a sociedade acha que viveu.

    Quando era pequena, dizia meus pais que nem sempre tivemos dinheiro para as coisas, passávamos dificuldades, mas na realidade de uma criança, não víamos dessa maneira. Víamos se tínhamos brincadeiras, se tinha fantasias para imaginarmos um mundo inteiro como diziam alguns livros, pensávamos se lêssemos o bastante poderíamos imaginar igual aos personagens dos livros e filmes. Queria sim, certas coisas que não tínhamos, mas entendia que eu poderia ter melhor quando crescesse e tivesse dinheiro e disciplina para ter. Ô inocência da criança daquela época.

    Fui criada por avós que davam dinheiro a mais para os netos meninos, pois eram meninos, fui ensinada com muitos nãos, pois me achava incapaz de acertar certas coisas, tipo cozinhar, fazer um cheque (mesmo de brincadeira), a única coisa que eu poderia fazer e tinha que ser certo era limpeza (e mesmo assim achavam que não fazia direito).

    Atualmente, eu não sei direito sobre muitas coisas bancárias, pois era ensinada toda essa coisa de grande mundo ao meu irmão e aos homens da família. Eu também não sei cozinhar direito, pois sempre que tentava, era taxada de estragar tudo e que nem o cachorro iria comer. Então eu simplesmente parava de tentar, parava de tentar fazer perto da família, e quando fazia para os namorados, que medo.

    Ontem meu marido me disse "amor, você viu aquele vídeo onde tem 2 famílias e 2 jeitos de ensinamento aos filhos? onde uma família fazia tudo pela criança e não deixava a criança fazer nada, e ela foi crescendo e quando encontrou dificuldades na frente, ela não soube resolver, e a outra forçava desde pequeno a criança superar seus desafios criando um adulto que sabe ser independente." Ptz, vi minha vida nessa criança de cima, mas ao contrário da fase adulta, eu peguei livros, assisti desenhos e programas, fiquei quieta em meu mundinho de fantasia onde eu poderia ser incrível, e absorvi tudo o que via e aprendia.

    Por meio de livros, de adultos, aprendi matemática com cálculos de ensino médio quando era pequena, aprendi inglês com vídeos e músicas que eu gostava, aprendi a preencher um cheque, brincando no quintal da vizinha com um livro de contabilidade que estava ali jogado, aprendi formas de desenho pois eu gostava do que eu via e queria muito aprender certas coisas. Eu não fiquei parada para ter dificuldades mais tarde em encontrar empregos por não saber usar uma calculadora, ou preencher um cheque, ou simplesmente atender um cliente por ele ser estrangeiro. Me destaquei dos outros, mas sem um diploma dizendo o quanto sei fazer tudo isso, nada se vale.

    Hoje tenho 2 filhos maravilhosos, um marido que me da apoio em tudo, principalmente na cozinha quando erro algum prato, (ele é cozinheiro e meu maior crítico), estou correndo atrás de aprender novas línguas, novas matérias, novos desafios diariamente. Pois quero ser o orgulho dos meus filhos, um exemplo e dar exemplos de nunca desistir e os nãos, só são válidos para não se machucarem, mas sempre tentarem na próxima vez. 

    Isso não quer dizer que eu tive pais ruins, tive pais que tiveram uma criação diferente, em uma sociedade diferente do que a minha.

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